A Era dos Modelos Generativos

Transformers, difusão e o advento dos LLMs

história da computação
inteligência artificial
Arquiteturas de atenção, pré-treino em larga escala, modelos fundacionais e alinhamento humano.
Autor

Blog do Marcellini

Data de Publicação

8 de maio de 2026

A combinação entre dados em larga escala, arquiteturas de atenção, hardware acelerado e pré-treinamento massivo inaugurou a era dos modelos generativos.

Do deep learning aos modelos generativos

Depois da virada do deep learning, a IA passou a obter resultados impressionantes em visão computacional, reconhecimento de fala, tradução automática e processamento de linguagem natural.

Mas uma nova transformação aconteceria quando os modelos deixaram de ser apenas classificadores ou sistemas especializados em uma única tarefa e passaram a ser treinados em grandes volumes de dados para produzir novos conteúdos: textos, imagens, código, áudio, vídeo e combinações multimodais.

Essa é a era dos modelos generativos.

Em vez de apenas reconhecer padrões, esses sistemas passaram a gerar saídas complexas: completar frases, responder perguntas, escrever programas, criar imagens, resumir documentos, traduzir textos e simular diálogos.

NotaResumo em uma frase

A era dos modelos generativos nasce quando a IA combina escala, atenção, pré-treinamento massivo e modelos capazes de gerar conteúdo novo.

A arquitetura Transformer

Um marco decisivo foi a arquitetura Transformer, apresentada em 2017 no artigo Attention Is All You Need.

Antes dos Transformers, muitos modelos de linguagem dependiam de arquiteturas recorrentes, como RNNs e LSTMs. Esses modelos processavam sequências passo a passo, o que dificultava paralelização e tornava mais difícil capturar dependências longas.

O Transformer mudou esse cenário ao colocar o mecanismo de atenção no centro da arquitetura.

A atenção permite que o modelo relacione diferentes partes de uma sequência, atribuindo maior ou menor importância a palavras, tokens ou trechos conforme o contexto.

Essa mudança tornou possível treinar modelos maiores, mais paralelizáveis e mais eficientes em grandes volumes de texto.

Atenção: contexto como relação

A grande ideia por trás da atenção é que o significado de um elemento depende de suas relações com outros elementos.

Em uma frase, uma palavra não tem valor isolado. Ela ganha sentido pelo contexto. O mecanismo de atenção permite que o modelo calcule relações entre tokens e use essas relações para construir representações mais ricas.

Em modelos de linguagem, isso é especialmente importante. A mesma palavra pode ter sentidos diferentes dependendo do contexto, e uma frase pode depender de informações que apareceram muito antes no texto.

A atenção tornou os modelos mais capazes de lidar com dependências longas, ambiguidade e estrutura textual.

Pré-treinamento em larga escala

Outro ingrediente fundamental foi o pré-treinamento.

Em vez de treinar um modelo do zero para cada tarefa específica, a estratégia passou a ser treinar grandes modelos em enormes coleções de texto, código, imagens ou outros dados. Durante esse processo, o modelo aprende regularidades gerais: padrões linguísticos, relações semânticas, estruturas de documentos, estilos de escrita e até formas de raciocínio estatístico.

Depois, esse modelo pode ser adaptado para tarefas específicas por meio de ajuste fino, instruções ou técnicas de alinhamento.

Essa lógica mudou profundamente a IA:

  • primeiro, treina-se um modelo geral;
  • depois, adapta-se esse modelo para usos específicos.

É a base do que hoje chamamos de modelos fundacionais.

Modelos fundacionais

A expressão foundation models se refere a modelos treinados em larga escala, capazes de servir como base para muitas aplicações diferentes.

Um mesmo modelo pode ser usado para:

  • responder perguntas;
  • resumir textos;
  • traduzir;
  • escrever código;
  • classificar documentos;
  • auxiliar na análise de dados;
  • gerar imagens;
  • atuar como componente de sistemas maiores.

Essa flexibilidade tornou os modelos fundacionais muito importantes, mas também levantou novas questões: custo computacional, concentração tecnológica, vieses, segurança, propriedade dos dados, impacto ambiental e governança.

BERT, GPT e duas tradições de linguagem

No processamento de linguagem natural, dois caminhos ficaram especialmente conhecidos.

Modelos como BERT exploraram a ideia de representação contextual bidirecional. Eles foram muito importantes em tarefas de compreensão, classificação, busca e análise de texto.

Já a família GPT popularizou modelos autoregressivos treinados para prever o próximo token. Essa estratégia, combinada com escala, mostrou-se extremamente poderosa para geração de texto.

Essas duas tradições ajudaram a transformar o processamento de linguagem natural. A linguagem deixou de ser tratada apenas como sequência de palavras e passou a ser modelada por representações contextuais profundas.

Instruções, alinhamento e RLHF

Treinar um modelo grande em texto não é suficiente para torná-lo útil como assistente.

Um modelo pode saber completar frases, mas isso não significa que ele saiba seguir instruções, responder de modo seguro, admitir incerteza ou evitar respostas problemáticas.

Por isso, ganharam importância técnicas de alinhamento, incluindo treinamento com instruções e RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback).

A ideia geral é ajustar o comportamento do modelo para que suas respostas fiquem mais próximas das preferências humanas: mais úteis, claras, seguras e adequadas ao contexto.

Esse processo não resolve todos os problemas, mas tornou os LLMs muito mais utilizáveis em aplicações práticas.

Difusão e geração de imagens

A geração de conteúdo não ficou restrita ao texto.

Modelos de difusão ganharam grande destaque na geração de imagens. De forma simplificada, esses modelos aprendem a transformar ruído em uma imagem coerente, condicionada por texto ou outras entradas.

Essa abordagem permitiu avanços importantes em geração de imagens, edição visual, design, ilustração, vídeo e aplicações multimodais.

Com isso, a IA generativa passou a atuar em várias linguagens: texto, imagem, áudio, vídeo e código.

Multimodalidade

A etapa seguinte foi a multimodalidade.

Modelos multimodais combinam diferentes tipos de entrada e saída: texto, imagem, áudio, vídeo, tabelas, documentos e código.

Isso aproxima a IA de usos mais naturais. Uma pessoa pode enviar uma imagem e fazer perguntas sobre ela, pedir análise de um gráfico, resumir um documento, gerar código a partir de uma descrição ou combinar texto e imagem em uma mesma tarefa.

A multimodalidade amplia a noção de interface: a interação com a máquina deixa de depender apenas de comandos formais e passa a se aproximar de uma conversa com múltiplos tipos de conteúdo.

Contexto longo e agentes

Com modelos mais capazes, surgiram também sistemas com janelas de contexto maiores e propostas de agentes de IA.

Janelas de contexto maiores permitem que o modelo considere documentos extensos, conversas longas, bases de conhecimento e cadeias de instruções mais complexas.

Agentes de IA, por sua vez, são sistemas que usam modelos como componentes de uma arquitetura maior. Eles podem planejar etapas, chamar ferramentas, consultar arquivos, executar código, navegar em ambientes e interagir com outros sistemas.

Essa área ainda está em desenvolvimento e exige cautela. Quanto mais autonomia se dá a um sistema, maior a necessidade de controle, avaliação, segurança e supervisão humana.

Escalonamento e leis de escala

Um dos fenômenos mais importantes dessa era foi o escalonamento.

Pesquisadores observaram que, em muitos casos, aumentar dados, parâmetros e computação melhorava o desempenho dos modelos de forma previsível. Isso levou ao estudo das chamadas scaling laws, ou leis de escala.

Essa percepção orientou a construção de modelos cada vez maiores.

Mas a escala também tem custos:

  • alto consumo computacional;
  • demanda energética;
  • concentração de infraestrutura;
  • dificuldade de auditoria;
  • dependência de grandes bases de dados;
  • riscos de reprodução de vieses.

A era generativa, portanto, é também uma era de perguntas sociais, econômicas e políticas.

Linha do tempo essencial

  • 2017 — A arquitetura Transformer é apresentada.
  • 2018–2020 — Modelos como BERT e GPT consolidam o pré-treinamento em larga escala.
  • 2020–2022 — Grandes modelos de linguagem ganham escala e se tornam mais úteis em tarefas gerais.
  • 2022–2024 — IA generativa se populariza em texto, imagem, código e aplicações multimodais.
  • 2024 em diante — Crescem os debates sobre agentes, contexto longo, governança, segurança, custo computacional e impacto social.

Conceitos-chave

  • Transformer: arquitetura baseada em atenção, central para os LLMs modernos.
  • Atenção: mecanismo que permite ao modelo relacionar partes diferentes de uma sequência.
  • Pré-treinamento: treinamento inicial em grandes volumes de dados para aprender padrões gerais.
  • Modelo fundacional: modelo de larga escala que serve como base para múltiplas aplicações.
  • LLM: grande modelo de linguagem treinado para processar e gerar texto.
  • RLHF: ajuste do comportamento do modelo com base em feedback humano.
  • Difusão: família de métodos generativos muito usada em geração de imagens.
  • Multimodalidade: integração de diferentes tipos de dados, como texto, imagem, áudio e vídeo.
  • Escalonamento: aumento de dados, parâmetros e computação para melhorar desempenho.
  • Agentes: sistemas que usam modelos para planejar, chamar ferramentas e executar tarefas em etapas.

Personagens e episódios em foco

  • Transformer — arquitetura que reorganizou o processamento de linguagem natural moderno.
  • BERT — marco em representações contextuais para compreensão de texto.
  • GPT — marco em geração autoregressiva de linguagem em larga escala.
  • Modelos de difusão — fundamentais para a popularização da geração de imagens.
  • RLHF — técnica importante para tornar modelos mais alinhados a instruções humanas.
  • Modelos fundacionais — nova forma de organizar a IA em torno de modelos gerais reutilizáveis.

Leituras sugeridas

  • VASWANI, Ashish et al. “Attention Is All You Need”. 2017.
  • DEVLIN, Jacob et al. “BERT: Pre-training of Deep Bidirectional Transformers for Language Understanding”. 2018.
  • BROWN, Tom B. et al. “Language Models are Few-Shot Learners”. 2020.
  • BOMMASANI, Rishi et al. “On the Opportunities and Risks of Foundation Models”. 2021.
  • OUYANG, Long et al. “Training language models to follow instructions with human feedback”. 2022.
  • GOODFELLOW, Ian; BENGIO, Yoshua; COURVILLE, Aaron. Deep Learning. MIT Press, 2016.

Síntese

A era dos modelos generativos representa uma nova fase da Inteligência Artificial.

Depois da IA simbólica, dos invernos, do aprendizado de máquina estatístico e da virada do deep learning, a área passou a se organizar em torno de modelos treinados em larga escala, capazes de gerar conteúdo e servir como base para múltiplas aplicações.

Transformers, pré-treinamento, atenção, difusão, RLHF, multimodalidade e modelos fundacionais mudaram a forma como interagimos com sistemas computacionais.

Mas essa potência também trouxe novas responsabilidades: avaliar limites, reduzir riscos, compreender impactos sociais e decidir como queremos usar essas tecnologias.